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Publicado em 21/08/2026 • Por Zenith Judicial

As bets e a crise do varejo brasileiro: quando a aposta disputa espaço com o consumo

Como o crescimento das apostas vem impactando o cenário empresarial no Brasil.

O varejo brasileiro atravessa um momento de fragilidade que não se explica apenas pelos fatores macroeconômicos tradicionais. Ao lado dos juros elevados e do endividamento crônico das famílias, um novo concorrente vem capturando parcela crescente da renda disponível dos consumidores: as plataformas de apostas online, popularmente conhecidas como bets. O fenômeno, que ganhou força após a regulamentação do setor pela Lei nº 14.790/2023, tem se consolidado como um dos temas centrais no debate sobre a retração do consumo no país.

Um número que resume o problema

Levantamento da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) estima que, entre janeiro de 2023 e março de 2026, as plataformas de apostas online drenaram cerca de R$ 143 bilhões do comércio varejista brasileiro, um montante equivalente ao faturamento somado das vendas de Natal de 2024 e 2025, tradicionalmente as datas mais relevantes do calendário do setor. No mesmo intervalo, os brasileiros passaram a destinar mais de R$ 30 bilhões por mês às plataformas de apostas, comprometendo parte da renda que antes seria disponível para o pagamento de dívidas e despesas correntes.

O impacto não se distribui de forma homogênea entre os setores. Segundo o estudo, cerca de 23% dos apostadores relataram ter reduzido gastos com vestuário para sustentar o hábito das apostas, enquanto 19% diminuíram despesas em supermercados. Análises setoriais independentes, como a da Genial Investimentos sobre o varejo (com foco no caso Carrefour), reforçam essa leitura: a correlação entre o crescimento dos gastos com apostas e a queda nas vendas de vestuário no período analisado foi negativa e expressiva, sugerindo que uma parcela relevante da retração nesse subsetor pode ser explicada pelo redirecionamento de renda às bets. Já o impacto sobre supermercados, embora presente, é mais moderado, um resultado esperado, já que alimentos são bens de primeira necessidade e, portanto, menos sensíveis a esse tipo de deslocamento de consumo.

O efeito multiplicador perdido

Para a economista Carla Beni, professora da Fundação Getúlio Vargas e integrante do Conselho Regional de Economia de São Paulo, o problema das bets não pode ser tratado como uma questão individual ou isolada. Em entrevista à Rádio Câmara, ela chamou atenção para o chamado "efeito multiplicador" do consumo: quando a família compra bens e serviços no varejo tradicional, esse dinheiro circula pela economia, gera emprego, movimenta a indústria e a infraestrutura de reposição. Já o dinheiro capturado pelas casas de apostas não produz esse mesmo efeito positivo em cadeia, ele tende a ficar retido dentro do próprio ecossistema das plataformas.

Essa leitura é corroborada pelos dados de comportamento dos apostadores: estudos setoriais mostram que apenas uma minoria de quem ganha dinheiro em apostas o destina a outros gastos, a maior parte do valor é reinvestida em novas apostas, alimentando um ciclo que raramente retorna ao consumo produtivo.

Quem sente mais o impacto

O fenômeno atinge de forma desproporcional as famílias de menor renda. Levantamentos do Banco Central mostram que milhões de beneficiários de programas sociais destinaram parcela relevante de seus recursos a apostas via Pix, o que levou o governo a restringir o acesso às bets para quem está em programas de renegociação de dívidas, como o Desenrola, ou em cadastros de assistência social. Estudos por classe social indicam ainda que, nas faixas de renda mais baixas, a participação das apostas no orçamento familiar cresceu de forma ainda mais acentuada do que na média nacional, o que amplia a pressão sobre a capacidade de consumo justamente do público que sustenta boa parte do varejo popular e de massa.

Juros altos e bets: fatores que se somam

O debate econômico recente tem apontado que a crise do varejo é multifatorial: aos juros elevados, que encarecem o crédito e reduzem a capacidade de compra parcelada, soma-se agora o fator bets como um dreno adicional e recorrente de renda. Diferentemente de outras despesas discricionárias, as apostas online têm alta frequência de uso e acesso facilitado por smartphones, o que as torna uma "fuga de renda" contínua e de difícil mensuração pelos instrumentos tradicionais de análise de consumo. Especialistas têm reforçado que esse duplo movimento — crédito caro e apostas em expansão — ajuda a explicar por que, mesmo em períodos de recuperação do emprego e da renda, parte das famílias não consegue converter esse ganho em consumo sustentável.

Caminhos discutidos

Entre as medidas em debate para conter os efeitos mais nocivos do fenômeno estão a ampliação da tributação sobre as bets, a restrição à publicidade do setor (inspirada no modelo já aplicado ao cigarro), o bloqueio de apostas para beneficiários de programas sociais e inadimplentes em renegociação, e o fortalecimento da educação financeira, com iniciativas de estímulo ao pequeno investimento como alternativa ao apelo imediatista das apostas.

Análises de mercado sobre o varejo, no entanto, ponderam que o impacto das bets, embora real e mensurável, não deve ser interpretado como uma ameaça capaz de comprometer a sustentabilidade das empresas do setor no longo prazo. Trata-se de mais um obstáculo estrutural, ao lado dos juros altos e do endividamento, que exige monitoramento contínuo e adaptação das estratégias comerciais, especialmente por parte das companhias mais expostas ao público de menor renda.

Conclusão

A convergência entre juros elevados, endividamento recorde e a expansão acelerada das apostas online configura um cenário inédito para o varejo brasileiro. Mais do que um fenômeno de comportamento individual, as bets representam hoje uma disputa direta e crescente pela renda disponível das famílias, com efeitos econômicos que já podem ser quantificados em dezenas de bilhões de reais retirados do consumo formal. O tema deixou de ser apenas uma pauta de saúde pública ou de regulação de jogos para se tornar uma variável relevante na leitura da própria atividade econômica do país.

 

Fontes utilizadas

  1. VEJA. Bets pressionam o varejo ao drenar recursos das famílias brasileiras. Disponível em: https://veja.abril.com.br/economia/bets-pressionam-o-varejo-ao-drenar-recursos-das-familias-brasileiras/
  2. O GLOBO — Blog da Miriam Leitão. Do juro alto às bets: os fatores por trás da crise do varejo. Disponível em: https://oglobo.globo.com/blogs/miriam-leitao/post/2026/08/do-juro-alto-as-bets-os-fatores-por-tras-da-crise-do-varejo.ghtml
  3. CÂMARA DOS DEPUTADOS — Rádio Câmara, Economia Direta. Economista Carla Beni alerta para impacto das bets no varejo e nas famílias. Disponível em: https://www.camara.leg.br/radio/programas/economia-direta/1278113-economista-carla-beni-alerta-para-impacto-das-bets-no-varejo-e-nas-familias/
  4. GENIAL INVESTIMENTOS — Genial Analisa. Bets: mapeando o impacto das apostas on-line no varejo brasileiro. Disponível em: https://analisa.genialinvestimentos.com.br/acoes/carrefour/bets-mapeando-o-impacto-das-apostas-on-line-no-varejo-brasileiro/
  5. STARTSE. Estudo: R$ 143 bilhões migraram do varejo para as bets. Disponível em: https://www.startse.com/artigos/estudo-rdollar-143-bilhoes-migraram-do-varejo-para-as-bets/
Autor da publicação: Zenith Judicial
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